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Curiosidades

A arte de performar masculinidades: origem, técnicas e cena brasileira

Tiago da Silva CândidoPorTiago da Silva Cândido Atualizado em 7 min de leitura
Artista drag king em palco com figurino masculino composto por colete preto, camisa branca com mangas dobradas, gravata e boné, olhando para o lado com expressão confiante, em ambiente iluminado por luzes coloridas e público ao fundo.
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Drag king é a pessoa que constrói e apresenta, em palco ou performance, uma personagem masculina exagerada ou estilizada, usando figurino, maquiagem, postura e voz. É a contraparte da drag queen, que faz o mesmo com a feminilidade. A maioria dos artistas que fazem drag king são mulheres cis, pessoas trans ou não binárias, mas a arte não é restrita a nenhum gênero: o que define a prática é a performance, não quem está por baixo do bigode.

Este texto explica de onde vem a arte drag king, o que ela discute sobre masculinidade, como é a cena no Brasil, quais técnicas os artistas usam e o que alguém que quer começar precisa saber. A abordagem é informativa: drag é uma linguagem artística, com história e vocabulário próprios.

O que é drag king e o que diferencia da drag queen

Drag, em sentido amplo, é a performance de gênero como arte. A drag queen amplifica códigos de feminilidade (salto, peruca, maquiagem marcada). O drag king amplifica códigos de masculinidade: barba desenhada, sobrancelha grossa, peito achatado, ombros marcados, andar largo. Nos dois casos a intenção é a mesma: mostrar que gênero é feito de gestos e sinais que podem ser aprendidos, exagerados e satirizados.

AspectoDrag kingDrag queen
Códigos trabalhadosMasculinidadeFeminilidade
Recursos visuais comunsBarba e bigode, binder, enchimento nos ombros, terno ou roupa de trabalhoPeruca, salto, enchimento de quadril, vestido, maquiagem intensa
Tipos de performanceDublagem, stand-up, dança, teatro, sátira de arquétipos (galã, roqueiro, “coach”)Dublagem, dança, comédia, concursos
Visibilidade na mídiaMenor, com cena mais ligada a coletivos e festas independentesMaior, com programas de TV e turnês
Quem fazQualquer pessoa; historicamente mulheres e pessoas queerQualquer pessoa; historicamente homens gays e pessoas trans

Uma apresentação geral da prática, com histórico e referências, está na página sobre A arte drag king.

De onde vem essa arte

Mulheres se apresentando em papéis masculinos no teatro são registradas há séculos, do teatro elisabetano à ópera, em que papéis de rapazes eram cantados por sopranos. No fim do século XIX e início do XX, os teatros de variedades da Inglaterra e dos Estados Unidos tinham as chamadas “male impersonators”, artistas que cantavam e dançavam vestidas como cavalheiros e faziam muito sucesso com o público.

O termo “drag king” como se usa hoje se consolidou nas décadas de 1980 e 1990, ligado a bares e clubes de comunidades lésbicas e queer nos Estados Unidos e na Europa, onde surgiram concursos e coletivos. A partir dos anos 2000, com internet e redes sociais, a prática se espalhou e chegou com força ao Brasil.

A cena brasileira

No Brasil, drag kings se organizam principalmente em coletivos e em noites temáticas de casas LGBTQIA+ nas capitais. As performances misturam dublagem de artistas homens, números de humor sobre tipos masculinos do cotidiano brasileiro (o tiozão do churrasco, o pagodeiro, o executivo) e teatro. Parte dos artistas também usa o drag para discutir violência de gênero e machismo, tornando a sátira um comentário social.

A reportagem A arte de quem desafia e reinventa traz depoimentos de artistas brasileiros sobre como constroem suas personas e o que buscam em cena.

O que a performance diz sobre masculinidade

Quando alguém que não é homem imita um homem e o público reconhece a imitação, fica evidente que aquele jeito de andar, falar e ocupar espaço é aprendido. Esse é o ponto central da arte drag king: revelar a masculinidade como um conjunto de regras sociais, e não como algo natural.

Isso permite dois movimentos. O primeiro é a sátira: exagerar o machão, o galã ou o “homem de negócios” até ficar ridículo. O segundo é a ternura: apresentar masculinidades que a cultura costuma esconder, como o homem afetuoso, o vulnerável, o que cuida. Muitos artistas transitam entre os dois no mesmo número.

Técnicas usadas em cena

Maquiagem

  • Barba e bigode: desenhados com lápis e sombra em tons de castanho e cinza, ou construídos com fios de cabelo sintético colados com cola de cílios ou látex.
  • Contorno: escurecer as laterais do nariz, o maxilar e as têmporas para deixar o rosto mais anguloso.
  • Sobrancelha: preenchida para baixo e mais grossa.
  • Fixação: para uma performance de horas sob luz quente, técnicas de selagem da base ajudam; o processo está explicado em Baking na Maquiagem: O Segredo para Pele Duradoura em 2026.

Corpo e figurino

  • Binder ou top compressor para achatar o peito, sempre no tamanho certo e por poucas horas seguidas.
  • Enchimento de ombros em blazers e jaquetas.
  • Packer, um volume de tecido ou silicone na calça, usado por alguns artistas.
  • Roupas que reforçam a personagem: terno, uniforme, jaqueta de couro, camisa de time.

Postura, voz e presença

Peso nos calcanhares, pés afastados, braços longe do corpo, queixo levemente erguido. A voz desce de tom e o ritmo da fala fica mais lento, com pausas. Muitos artistas estudam vídeos de homens reais para copiar gestos específicos: o jeito de segurar um copo, de se sentar, de olhar.

Como começar

  1. Defina a persona. Escolha um tipo: um arquétipo para satirizar, um ídolo para homenagear ou uma masculinidade que você quer mostrar. Dê nome, história e uma característica marcante.
  2. Monte um kit básico. Lápis de olho castanho, sombra em dois tons, pó translúcido, cola de cílios, um binder no tamanho correto e uma roupa que já tenha em casa.
  3. Treine em frente ao espelho e filme. Postura e andar são a parte que mais convence. Grave, assista e ajuste.
  4. Escolha uma música ou texto de 3 minutos. Números curtos funcionam melhor no começo.
  5. Procure um coletivo ou uma noite aberta. Muitas festas têm espaço para estreantes, e a troca com outros artistas acelera o aprendizado.

Cuidados com o corpo importam: binder apertado demais por muitas horas dificulta a respiração, e cola de látex pode causar alergia. Teste os produtos antes do dia da apresentação.

Drag como forma de olhar o mundo

Drag king é uma prática de observação. Quem faz passa a reparar em como as pessoas ocupam o espaço, falam e se vestem, e o que isso comunica. É um treino de atenção parecido com o de quem viaja com olhar atento ao que está ao redor, seja em um palco de bar ou em uma trilha, como propõe o texto sobre 5 Maravilhas da Biosfera que Você Precisa Conhecer: 8 Dicas para Viagem Sustentável. Em ambos os casos, a experiência muda a forma de ver o cotidiano depois que termina.

Perguntas frequentes

Preciso ser mulher ou pessoa LGBTQIA+ para ser drag king?

Não. Drag king é uma prática artística aberta a qualquer pessoa. Historicamente a cena foi construída por mulheres e pessoas queer, e isso segue sendo a maioria, mas homens cis também fazem drag king, geralmente como sátira da própria masculinidade.

Drag king é a mesma coisa que ser transgênero?

Não. Drag é performance: a persona existe em cena e é retirada depois. Identidade de gênero é como a pessoa se entende na vida. Há pessoas trans que fazem drag e pessoas cis que fazem drag; uma coisa não define a outra.

Qual a diferença entre drag king e transformista?

No uso brasileiro, “transformista” é um termo mais antigo para artistas que se apresentam com figurino de outro gênero, muito ligado a shows de dublagem. Drag king e drag queen são termos mais recentes, associados a uma linguagem própria de exagero e crítica. Na prática, há sobreposição, e cada artista escolhe como se nomear.

Onde assistir a apresentações no Brasil?

Em noites temáticas de casas LGBTQIA+ das capitais, em festivais de arte queer e em perfis de coletivos nas redes sociais, que divulgam a agenda. Procurar pelo termo junto com o nome da sua cidade costuma levar aos grupos ativos.

Quanto custa montar uma primeira persona?

Pouco, se você usar roupas que já tem. O gasto principal é o binder e alguns itens de maquiagem. Barba de cabelo sintético e látex são opcionais e podem vir depois.

O que levar dessa leitura

Drag king é a arte de performar masculinidades, com raízes no teatro de variedades e uma cena ativa no Brasil. Ela mostra que gênero é feito de gestos aprendidos, serve tanto para a sátira quanto para a ternura e está aberta a quem quiser experimentar, com um kit simples e uma persona bem definida.

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